As histórias e hábitos de quem joga são bem parecidos. Perder horas de trabalho ou escola devido ao jogo, causar infelicidade à família, depreciar a própria reputação em casa ou junto aos amigos de serviço, sentir remorso após jogar, jogar até o último centavo, pedir dinheiro emprestado, vender bens para financiar a jogatina; todos estes comportamentos são recíprocos aos que têm o jogo como vício. Nesta reportagem, os personagens viciados em jogo terão as identidades preservadas; serão usados nomes fictícios.
E não é preciso ir muito longe de casa ou do trabalho para encontrar casas clandestinas de jogos para colocar a jogatina em prática diariamente, várias vezes ao dia. Na avenida Central, em Barcelona, na Serra, uma casa de jogos irregulares funciona, de segunda a segunda, sempre após as 19 horas. A reportagem da Redação Multimídia esteve no local e comprovou em vídeo a contravenção. Em um típico bar de periferia, com área para fumantes e não-fumantes, em plena terça-feira, todos os lugares estavam ocupados. A maioria dos clientes era formada por senhores aposentados que perdem dinheiro a cada rodada do bingo.
Foi constatado que se perde muito nestas casas. Cada cartela custa R$ 3,00. Parece pouco, mas em horas de jogo pode-se perder a aposentadoria, como acontece com Seu 'Norberto'. Dependendo de quantas cartelas ele compra por rodada, vai-se uma bela quantia. "No local funciona um bingo e seis caça-níqueis. Há algo de muito nebuloso neste lugar, porque, sempre que a polícia vai fiscalizar o bar, as máquinas somem. Ninguém sabe quem são os donos do estabelecimento", destaca um dos filhos de Seu 'Norberto'.
O aposentado, conta o filho indignado, gasta todo dinheiro com os jogos. A família do patriarca viciado em jogo sofre com o acúmulo de dívidas. "Todo dinheiro que entrava em casa ia para o jogo. O que ele ganha no bingo ou no caça-níquel volta para a mão do dono da casa de jogos. Religiosamente, no mínimo, a metade da aposentadoria do meu pai vai para o lixo. O pior é que ele sabe que a máquina manipula o resultado, mas, mesmo assim, joga".
O filho de Seu 'Norberto também destaca que o pai tem o pretexto de ir tomar cerveja no bar, mas acaba jogando. Com o que deve cria um vínculo com o proprietário do bar. "O viciado em jogo é o melhor pagador. Ele deixa de comer e tira o dinheiro da família para pagar os credores, visando apenas a voltar a jogar. Já falamos que levaríamos ele para uma associação de jogadores anônimos, mas ele não reconhece o vício. Aos poucos nós perdemos o que temos. Principalmente no dia 05, ele vai ao bingo, só que há 90 dias eu e meus irmãos conseguimos controlar o cartão do banco dele".
foto: Rodrigo Rezende
Rodrigo Rezende
Não foi uma vida fácil, pois a compulsão foi piorando e as dívidas aumentando
Compulsão
A psiquiatria classifica este vício como um transtorno de hábitos impulsivos, como a cleptomania (impulso irresistível e mórbido para o roubo), a piromania (monomania de incendiar) e as compulsões por sexo e por comprar.
Nos anos 80, o campista 'Mário', de 54 anos, teve uma grande felicidade com o jogo. Ganhou uma boa quantia em dinheiro na 'Quina'. Comprou carro do ano e apartamento. Já tinha uma vida de sucesso profissional e um bom salário. "Depois disso, passei a jogar sempre em todas as modalidades da loteria", conta 'Mário', que hoje freqüenta regularmente as reuniões dos Jogadores Anônimos (JA).
O contato de 'Mário' com os caça-níqueis começou de uma forma inocente, para não dizer, infantil. Ele, surpreendentemente, se viciou em máquinas de bichinho de pelúcia, aquelas em que o jogador deposita uma moeda de R$ 1,00 e, com um garra, tenta resgatar um brinquedinho. "No início meu gasto não passava dos R$ 10,00, mas com o tempo, como viajo muito de carro, passei a ficar horas e horas em postos de gasolina à beira das estradas para jogar", disse.
Auto-estima baixa
Segundo ele, foi neste período que a mentira entrou em sua vida. Para ficar ao lado das máquinas ele passou a enganar os patrões e mentir para a esposa. "Quando me ligavam, dizia que o carro tinha quebrado e que voltaria apenas no outro dia. O próximo estágio deste vício foi o meu descuido com a higiene pessoal. Não fazia a barba, nem cortava o cabelo e só queria o jogo, que se tornou meu melhor amigo".
O senhor 'Mário' gastou muito dinheiro com o jogo. Viciado em caça-níqueis perdeu nas máquinas a verba do fundo de garantia e da poupança dos filhos. Para pagar dívidas de jogo, vendeu carro, hipotecou o apartamento e diz que chegou muito além do fundo do poço. Por várias vezes pensou em se matar. "O que um dia foi minha razão de viver, a minha verdade, passou a ser meu suplício, o meu fim", emocionou-se em um depoimento inflamado durante uma reunião do JA.
Nas sessões dos Jogadores Anônimos, as pessoas não obtém a cura, mas a paralisia da doença. É o que diz quem participa das reuniões. O dependente 'Roberto' explica que o vício pelo jogo é incurável e se assemelha muito ao diabetes, que também não tem cura, mas com o controle da insulina tem seu efeito estacionado. Este vício, reconhecido como doença pela Organização Mundial de Saúde, não atinge somente pessoas de classe socioeconômica elevada, mas pode bater a porta das mais diversas famílias.
Agiotas
No caso do capixaba 'Gustavo', de 53 anos, o vício no jogo extrapolou os limites de sua renda, afinal, ele não tinha carro, nem casa para vender. Para bancar a jogatina, pegou empréstimo em cinco grandes bancos, além de usar serviços de agiotas. "Fiz dívida em cima de dívida, pegava dinheiro emprestado, mas em vez de quitar meus débitos por completo, gastava mais com o jogo. Um certo dia, já derrotado pelo jogo e pelo álcool, me deparei em um beco com R$ 26,00 no bolso. Tinha duas máquina e, impulsivo, joguei R$ 25,00. Perdi o dinheiro, fiquei com R$ 1,00. Revoltado, depressivo, mas com a idéia de parar, desde este dia a nota está na minha carteira e é um simbolo da minha reviravolta".
'Olavo' jogou por 40 anos sem saber que o vício era doença. Perdeu emprego, família e tudo que tinha. "Quando as portas começaram a fechar vi que, ou eu me entregava de vez, ou levantava. Estou há 12 anos sem jogar, consegui refazer minha vida".
Casado e morando na zona sul do Rio de Janeiro, 'Olavo' diz ser um milagre. "Mas, tem uma coisa. Vivo em uma linha de equilíbrio. Isso porque o jogador compulsivo que está sem jogar corre o risco de cair em outra compulsão e desenvolver outro vício que pode vir a ser um caminho sem volta. Conheço um alcoólatra que começou a jogar e, além do JA frequenta o AA. Migrar para outra compulsão é uma tentação. Evito até pensar nisso, temo cair na tentação de mulheres, drogas ou álcool. Há aqueles que passam a comer tudo que vêem pela frente".
De acordo com 'Olavo', por vivência, acredita que quem tem compulsão por jogo tem que saber que não tem cura, mas tem controle. Para isso, "tem que viver um dia de cada vez. Se você quer jogar, é um problema seu. Se você quer parar, é um problema nosso".
Fichas de poker, cartas e dinheiro apeendidos em um cassino clandestino de Guarapari
Galeria de fotos
Diferente dos outros viciados em tratamento, o senhor 'Josias' tem fixação pelo bingo e pelo jogo do bicho. "Comecei a participar do JA há cinco anos e, desde então, não jogo mais. Eu era viciado em jogo do bicho, jogava todos os dias. Não foi uma vida fácil, pois a compulsão foi piorando e as dívidas aumentando. Eu pegava dinheiro emprestado com amigos, usando do meu prestígio com eles, e depois não conseguia pagar. Não cheguei a perder casa, família, mas foi quase. Com a ajuda de outros jogadores, vi que minha recuperação era possível e que ia superar".
Superação e distância do jogo é o que muitas famílias esperam de seus entes queridos envolvidos com o vício. 'Josias', pela experiência, comenta que viciados em jogo, no Espírito Santo, podem lotar facilmente um Maracanã. "É mais comum do que se imagina". O estrago que o jogo traz às vidas destas pessoas toma proporções que muitos duvidam, como é a situação enfrentada por 'Roque' filho de 'Norberto', de 65 anos, um aposentado que gasta todas as economias no bingo.
E não é preciso ir muito longe de casa ou do trabalho para encontrar casas clandestinas de jogos para colocar a jogatina em prática diariamente, várias vezes ao dia. Na avenida Central, em Barcelona, na Serra, uma casa de jogos irregulares funciona, de segunda a segunda, sempre após as 19 horas. A reportagem da Redação Multimídia esteve no local e comprovou em vídeo a contravenção. Em um típico bar de periferia, com área para fumantes e não-fumantes, em plena terça-feira, todos os lugares estavam ocupados. A maioria dos clientes era formada por senhores aposentados que perdem dinheiro a cada rodada do bingo.
Foi constatado que se perde muito nestas casas. Cada cartela custa R$ 3,00. Parece pouco, mas em horas de jogo pode-se perder a aposentadoria, como acontece com Seu 'Norberto'. Dependendo de quantas cartelas ele compra por rodada, vai-se uma bela quantia. "No local funciona um bingo e seis caça-níqueis. Há algo de muito nebuloso neste lugar, porque, sempre que a polícia vai fiscalizar o bar, as máquinas somem. Ninguém sabe quem são os donos do estabelecimento", destaca um dos filhos de Seu 'Norberto'.
O aposentado, conta o filho indignado, gasta todo dinheiro com os jogos. A família do patriarca viciado em jogo sofre com o acúmulo de dívidas. "Todo dinheiro que entrava em casa ia para o jogo. O que ele ganha no bingo ou no caça-níquel volta para a mão do dono da casa de jogos. Religiosamente, no mínimo, a metade da aposentadoria do meu pai vai para o lixo. O pior é que ele sabe que a máquina manipula o resultado, mas, mesmo assim, joga".
O filho de Seu 'Norberto também destaca que o pai tem o pretexto de ir tomar cerveja no bar, mas acaba jogando. Com o que deve cria um vínculo com o proprietário do bar. "O viciado em jogo é o melhor pagador. Ele deixa de comer e tira o dinheiro da família para pagar os credores, visando apenas a voltar a jogar. Já falamos que levaríamos ele para uma associação de jogadores anônimos, mas ele não reconhece o vício. Aos poucos nós perdemos o que temos. Principalmente no dia 05, ele vai ao bingo, só que há 90 dias eu e meus irmãos conseguimos controlar o cartão do banco dele".
foto: Rodrigo Rezende
Rodrigo Rezende
Não foi uma vida fácil, pois a compulsão foi piorando e as dívidas aumentando
Compulsão
A psiquiatria classifica este vício como um transtorno de hábitos impulsivos, como a cleptomania (impulso irresistível e mórbido para o roubo), a piromania (monomania de incendiar) e as compulsões por sexo e por comprar.
Nos anos 80, o campista 'Mário', de 54 anos, teve uma grande felicidade com o jogo. Ganhou uma boa quantia em dinheiro na 'Quina'. Comprou carro do ano e apartamento. Já tinha uma vida de sucesso profissional e um bom salário. "Depois disso, passei a jogar sempre em todas as modalidades da loteria", conta 'Mário', que hoje freqüenta regularmente as reuniões dos Jogadores Anônimos (JA).
O contato de 'Mário' com os caça-níqueis começou de uma forma inocente, para não dizer, infantil. Ele, surpreendentemente, se viciou em máquinas de bichinho de pelúcia, aquelas em que o jogador deposita uma moeda de R$ 1,00 e, com um garra, tenta resgatar um brinquedinho. "No início meu gasto não passava dos R$ 10,00, mas com o tempo, como viajo muito de carro, passei a ficar horas e horas em postos de gasolina à beira das estradas para jogar", disse.
Auto-estima baixa
Segundo ele, foi neste período que a mentira entrou em sua vida. Para ficar ao lado das máquinas ele passou a enganar os patrões e mentir para a esposa. "Quando me ligavam, dizia que o carro tinha quebrado e que voltaria apenas no outro dia. O próximo estágio deste vício foi o meu descuido com a higiene pessoal. Não fazia a barba, nem cortava o cabelo e só queria o jogo, que se tornou meu melhor amigo".
O senhor 'Mário' gastou muito dinheiro com o jogo. Viciado em caça-níqueis perdeu nas máquinas a verba do fundo de garantia e da poupança dos filhos. Para pagar dívidas de jogo, vendeu carro, hipotecou o apartamento e diz que chegou muito além do fundo do poço. Por várias vezes pensou em se matar. "O que um dia foi minha razão de viver, a minha verdade, passou a ser meu suplício, o meu fim", emocionou-se em um depoimento inflamado durante uma reunião do JA.
Nas sessões dos Jogadores Anônimos, as pessoas não obtém a cura, mas a paralisia da doença. É o que diz quem participa das reuniões. O dependente 'Roberto' explica que o vício pelo jogo é incurável e se assemelha muito ao diabetes, que também não tem cura, mas com o controle da insulina tem seu efeito estacionado. Este vício, reconhecido como doença pela Organização Mundial de Saúde, não atinge somente pessoas de classe socioeconômica elevada, mas pode bater a porta das mais diversas famílias.
Agiotas
No caso do capixaba 'Gustavo', de 53 anos, o vício no jogo extrapolou os limites de sua renda, afinal, ele não tinha carro, nem casa para vender. Para bancar a jogatina, pegou empréstimo em cinco grandes bancos, além de usar serviços de agiotas. "Fiz dívida em cima de dívida, pegava dinheiro emprestado, mas em vez de quitar meus débitos por completo, gastava mais com o jogo. Um certo dia, já derrotado pelo jogo e pelo álcool, me deparei em um beco com R$ 26,00 no bolso. Tinha duas máquina e, impulsivo, joguei R$ 25,00. Perdi o dinheiro, fiquei com R$ 1,00. Revoltado, depressivo, mas com a idéia de parar, desde este dia a nota está na minha carteira e é um simbolo da minha reviravolta".
'Olavo' jogou por 40 anos sem saber que o vício era doença. Perdeu emprego, família e tudo que tinha. "Quando as portas começaram a fechar vi que, ou eu me entregava de vez, ou levantava. Estou há 12 anos sem jogar, consegui refazer minha vida".
Casado e morando na zona sul do Rio de Janeiro, 'Olavo' diz ser um milagre. "Mas, tem uma coisa. Vivo em uma linha de equilíbrio. Isso porque o jogador compulsivo que está sem jogar corre o risco de cair em outra compulsão e desenvolver outro vício que pode vir a ser um caminho sem volta. Conheço um alcoólatra que começou a jogar e, além do JA frequenta o AA. Migrar para outra compulsão é uma tentação. Evito até pensar nisso, temo cair na tentação de mulheres, drogas ou álcool. Há aqueles que passam a comer tudo que vêem pela frente".
De acordo com 'Olavo', por vivência, acredita que quem tem compulsão por jogo tem que saber que não tem cura, mas tem controle. Para isso, "tem que viver um dia de cada vez. Se você quer jogar, é um problema seu. Se você quer parar, é um problema nosso".
Fichas de poker, cartas e dinheiro apeendidos em um cassino clandestino de Guarapari
Galeria de fotos
Diferente dos outros viciados em tratamento, o senhor 'Josias' tem fixação pelo bingo e pelo jogo do bicho. "Comecei a participar do JA há cinco anos e, desde então, não jogo mais. Eu era viciado em jogo do bicho, jogava todos os dias. Não foi uma vida fácil, pois a compulsão foi piorando e as dívidas aumentando. Eu pegava dinheiro emprestado com amigos, usando do meu prestígio com eles, e depois não conseguia pagar. Não cheguei a perder casa, família, mas foi quase. Com a ajuda de outros jogadores, vi que minha recuperação era possível e que ia superar".
Superação e distância do jogo é o que muitas famílias esperam de seus entes queridos envolvidos com o vício. 'Josias', pela experiência, comenta que viciados em jogo, no Espírito Santo, podem lotar facilmente um Maracanã. "É mais comum do que se imagina". O estrago que o jogo traz às vidas destas pessoas toma proporções que muitos duvidam, como é a situação enfrentada por 'Roque' filho de 'Norberto', de 65 anos, um aposentado que gasta todas as economias no bingo.
Fonte: http://pokermanaus.forumeiros.com/t758-jogatina-e-o-vicio-dedico-esse-post-aos-viciados-do-jornal